1950!

Tínhamos o mesmo curso, o meu marido e eu e, naquele tempo não era provável encontrarmos colocação no mesmo liceu. Não queríamos ir parar sabe-se lá onde, afastados um do outro por um concurso imprevisível. Sabíamos que na Feira não existia ensino secundário. Numa escola particular poderíamos trabalhar juntos! Sonhámos e pusemos mãos à obra. Na Vila da Feira só conhecíamos o Sr. Dr. Alexandrino de Almeida, Conservador do Registo . Foi ele o nosso primeiro contacto com as Terras de Santa Maria. Lá decidimos viver e fundar uma escola.
Era Agosto, quase nos fins, daí a um mês tinha que começar o ano lectivo e era preciso encontrar edifício que a Inspecção do Ensino Particular aprovasse, ultrapassar burocracias, procurar professores, anunciar a existência da escola para que alunos se inscrevessem, comprar mobiliário escolar, sei lá que mais.
E o colégio abriu!
O senhor Presidente da Câmara, Sr. Dr. Domingos Sousa, que tinha acolhido o nosso projecto de braços abertos, deu-nos todo o apoio possível. Desde o início algumas das famílias da Feira sentiram bem as vantagens que lhes traria um estabelecimento de ensino onde os seus filhos pudessem seguir estudos sem terem de sair de casa.
E o colégio cresceu.
Venceram-se as dificuldades, encontrou-se sempre muito boa colaboração dos professores, muita dedicação dos auxiliares de ensino, muito apoio moral dos pais dos nossos alunos, muito entusiasmo e uma entrega total.
O que foi o colégio para mim, perguntam-me hoje vocês, meus queridos alunos do tempo que passou. Foi, a seguir à minha família, o complemento da minha vida. Os meus filhos cresceram por lá, nem sei quando aprenderam as primeiras letras e os outros meninos, os alunos, foram chegando, alguns bem novinhos para a primeira classe e por lá se mantiveram até ao fim do curso liceal.
E não havia só aulas.
Havia recreios, festas escolares, representações teatrais, sessões culturais, passeios de estudo, ralhetes e elogios, contactos com as famílias, salas de estudo. Era a nossa segunda casa e estes meninos eram os nossos segundos filhos. Acho que não exagero afirmando isto porque o contacto que mantenho com muitos deles desde que o colégio fechou, e os nossos encontros maiores que nunca deixaram de se realizar, asseguram-me que a nossa ligação é muito forte. E agora que os meus ex-alunos são pais e alguns avós, eles continuam a manifestar-me uma amizade profunda e um carinho que me enriquece e me comove.
(Maria Cândida Rodrigues Santiago)